Mar Aberto: Capítulo 03


MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 03

criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV

Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=xogQ6Olwm46yi9tS

CENA 1. CASA DE PRAIA DOS MARINS – ESCRITÓRIO – DIA

João levanta, contrariado, encarando Pedro.

JOÃO FELIPE: Pedro, você ainda tá abalado. Esse não é o momento de voltar. Todo mundo entende se quiser tirar um tempo. Não se precipite.

PEDRO: Enquanto eu me afundo na dor, a Atlântida pode afundar junto. Preciso reagir, João. Você pode não entender, mas eu preciso voltar.

JOÃO FELIPE (sentido): Você sempre achou que eu não entendo nada mesmo…

PEDRO: Não disse isso. (pausa) Mas você nunca amou aquela empresa como eu. A Atlântida tem significados diferentes pra nós dois. Amanhã volto pro Rio, e quero você comigo na reunião do conselho.

JOÃO FELIPE (engolindo seco): Claro. Estarei lá.

Pedro faz um aceno breve, encerrando o assunto. João caminha até a porta, mas vira antes de sair.

JOÃO FELIPE (sorri amarelo): Que bom ver você reagindo, meu irmão. Só espero que o mar esteja calmo pra essa nova travessia.

João sai. Pedro fica imóvel por alguns segundos, o olhar perdido na imensidão azul do mar. João sai pelo deck, colocando os óculos escuros, tentando controlar a raiva. Pega o celular, disca.

JOÃO FELIPE (celular): Silveira? Mudança de planos.

João respirando com raiva.

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CENA 2. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – QUARTO – DIA

Lia, ainda muito pálida e abatida, sentada na cama. Seus cabelos molhados foram penteados por Dalva, que entra trazendo um prato de sopa quente.

DALVA (sorrindo materna): Trouxe um pratinho de sopa bem quentinho, pra você, minha menina.

LIA (voz fraca, confusa): Onde eu tô?

DALVA (sentando na cama): Você tá segura, tá na minha casa.

Lia olha em volta, olhar assustado.

LIA (assustada): Eu quero minha mãe… O meu pai…

Dalva hesita por um instante, segura a mão da menina.

DALVA: Eu sei que quer, meu anjinho. (acarinha seu rosto) Mas agora você precisa descansar. Te encontrei no mar, desacordada. Tava tão fria, parecia um passarinho molhado…

LIA: Tinha muita chuva. Não lembro direito.

Vó Nena surge na porta enxugando as mãos em um pano de prato.

VÓ NENA: A febre baixou um pouco. É um milagre essa criança ter sobrevivido.

Dalva levanta, deixa Lia comendo sua sopa, e se aproxima de Vó Nena.

DALVA: Deus tirou minha filha, vó, e me deixou essa menina no lugar. Eu vou cuidar dela.

VÓ NENA: Então cuida, que às vezes o destino devolve o que leva, só que de outro jeito.

Dalva volta para perto da cama. Lia a observa com os olhos marejados, tentando entender.

LIA: Você vai me levar pra casa depois?

DALVA (sorri com ternura): Quando você ficar boa, a gente vê o que Deus quiser. Por enquanto, fica comigo, tá bem?

Lia hesita, mas o cansaço vence. Fechando os olhos lentamente, vai praticamente dormindo sentada. Dalva afaga seus cabelos, maternal.

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CENA 3. VILA DOS PESCADORES – BAR – DIA

O bar dos pescadores à beira da praia quase vazio. No balcão de madeira, Zé Bento toma um café forte, com o jornal aberto em sua frente. O vento do mar balança as folhas do jornal, e uma manchete chama a atenção do pescador: “TRAGÉDIA EM ALTO-MAR: POLÍCIA INVESTIGA PANE SUSPEITA EM LANCHA DA FAMÍLIA MARINS.”
Abaixo, uma foto de Pedro e Estela com os filhos gêmeos.
Zé Bento lê atentamente cada linha. O dono do bar, seu OSVALDO, observa curioso.

OSVALDO: Coisa triste, Zé! Falam que era gente importante do Rio, donos daquela empresa de lancha… Como era mesmo o nome?

ZÉ BENTO (fecha o jornal, pensativo): Atlântida. É… Família Marins.

OSVALDO: Conhece?

ZÉ BENTO (sombrio): Agora conheço. Mais do que devia.

Termina o café em um gole, joga umas moedas no balcão e sai, perturbado.

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CENA 4. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – TERREIRO – DIA

Dalva lavando roupas em um tanque, do lado de fora da casa. Zé chegando apressado com o jornal dobrado na mão.

ZÉ BENTO: Dalva, preciso falar contigo. (entrega o jornal) Olha o que tá escrito aí. Essa menina que tá aqui em casa, sabia que tinha alguma coisa de gente rica. Taí!

Dalva empalidece, pega o jornal com as mãos trêmulas. Lê a manchete, a foto, o coração dispara.

DALVA: Família Marins… Ela é uma das crianças do acidente com a lancha.

ZÉ BENTO: E tem mais, tão dizendo aí que a polícia acha que a lancha pode ter sido sabotada. Que foi pane, mas não pane qualquer. (tom baixo) Se for verdade, Dalva, alguém queria matar essa família.

Dalva sente as pernas fraquejarem, apoia no tanque.

DALVA (angustiada): Então se queriam matar eles, essa menina tá correndo perigo!

ZÉ BENTO (concordando): Por isso mesmo que a gente tem que contar pra polícia. Entregar ela, dizer o que aconteceu. É o certo.

DALVA: O certo é proteger essa criança, Bento!

ZÉ BENTO: Tu não sabe com o que tá se metendo, mulher. Gente rica tem rastro de problema que pobre nenhum consegue apagar.

DALVA (firme): Então que venham atrás de mim. Mas essa menina não vai voltar pra mão de quem quer o mal dela. Enquanto eu respirar, ela vai ficar segura.

Dalva encara Zé Bento, contrariado. O vento sopra as folhas do jornal, destacando as palavras “Sabotagem” e “desaparecimento misterioso”.

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A noite chegando em Arraial do Cabo, com uma chuva fina que cai sobre a casa da família Marins, iluminada.

CENA 5. CASA DE PRAIA DOS MARINS – SALA – NOITE

Pedro e Estela diante de dois oficiais da polícia marítima. Cecília também presente.

OFICIAL: Fizemos tudo o que podíamos, doutor. As buscas foram estendidas até a noite. Encontramos apenas mais destroços da lancha e alguns objetos pessoais. Mas nenhum vestígio da sua filha.

PEDRO (nervoso): Isso é impossível. Vocês estão desistindo cedo demais! O mar é grande, ela pode ter se abrigado em alguma ilha, pode estar viva!

OFICIAL (lamentando): Senhor, já se passaram dias, a temperatura da água, as correntes… As chances de sobrevivência são muito pequenas.

ESTELA: Pequenas, mas existem, não é? Vocês tem que continuar procurando enquanto essas chances existirem.

O oficial encara Estela, com pesar.

OFICIAL: Desculpe, senhora, as buscas oficiais estão encerradas. Mas se houver qualquer novo indício, retornaremos de imediato.

PEDRO (indignado): Eu pago! Pago o que for preciso! Quero helicópteros, mergulhadores, o que for. Só me digam que vão continuar, por favor.

SEGUNDO OFICIAL: Senhor, às vezes, o mar não devolve o que leva, e não há dinheiro que compre isso.

As palavras cortam Estela como lâmina.

ESTELA (chorando): Não fala isso! A Lia tá viva, Pedro! Ela tá viva, eu sei! O meu coração de mãe não se engana!

Pedro segura a esposa, tentando contê-la, a abraçando. O policial faz um leve aceno de cabeça para o parceiro e eles saem. Cecília enxugando as lágrimas. Lucas surge, descendo as escadas de pijama, segurando um ursinho de pelúcia.

LUCAS (inocente): Mamãe, cadê a Lia?

Estela se vira lentamente, lágrimas escorrem. Vai até o filho e o abraça com força, como se quisesse protegê-lo do mundo.

ESTELA: A Lia foi dormir, meu amor… Mas a mamãe vai trazer ela de volta, viu? Eu prometo.

LUCAS (sussurra confuso): Ela… Vai voltar do mar?

ESTELA (sorriso triste): Vai sim, filho. Ela vai voltar do mar.

Pedro fecha os olhos, impotente. Estela abraçada à Lucas, chora baixinho.

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CENA 6. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – QUARTO – NOITE

Dalva senta-se ao lado da cama, passando a mão pelo rosto de Lia, que dorme tranquilamente. Nena de pé, observando.

DALVA (baixinho, com ternura): Olha pra ela, vó. Parece um anjinho. Quem sabe Deus não quis que ela viesse parar aqui, pra curar um pedaço da dor que Ele mesmo deixou no meu peito?

VÓ NENA (suspira): Deus escreve certo por linhas tortas, filha. Talvez essa pequena tenha mesmo vindo do mar pra trazer um propósito pra tua vida.

DALVA (sorri levemente): Ela não é mais Lia. (pausa) Vai se chamar Maria Clara. Era o nome que eu ia dar minha menina, agora é dela.

Vó Nena observa emocionada, mas Zé entra no quarto contrariado.

ZÉ BENTO (duro): É o que, Dalva? Tu ficou doida? Vai botar nome na filha dos outros?

DALVA: Ela não tem mais ninguém, Bento. E se tiver, é gente perigosa, que tentou matar essa família rica. Aqui, ela vai tá protegida, vai crescer como nossa filha.

ZÉ BENTO: Nossa filha? Minha não, Dalva! Já perdi uma, e não vou fingir que essa menina é minha pra tapar buraco.

DALVA (magoada): Eu não quero tapar buraco nenhum. Só quero dar amor pra quem Deus deixou nos meus braços.

Ele contrariado, acaba acenando positivamente.

ZÉ BENTO: Faz o que quiser, mas deixa claro pra ela quando crescer que eu não sou o pai. (amargo) Não quero criança nenhuma me chamando de pai, pra depois a vida vir cobrar caro de novo.

Ele sai do quarto, pisando firme. Vó Nena se aproxima e segura a mão de Dalva.

VÓ NENA: Deixa, minha filha. O tempo amolece até o coração mais duro.

Dalva enxuga as lágrimas e olha para Lia (agora Maria Clara) e sorri com ternura.

DALVA: Eu prometo, minha florzinha, que ninguém vai te tirar de mim. Enquanto eu viver, você vai ser minha Maria Clara.

A câmera se aproxima lentamente do rosto da menina dormindo, sereno.

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CENA 7. SEQUÊNCIA DE CENAS

– O Sol nasce sobre o mar tranquilo. Dalva estende roupas no varal, enquanto Maria Clara, ainda frágil, observa ao longe, abraçada à uma boneca de pano.

– Zé Bento conserta redes de pesca no quintal. Clara se aproxima timidamente, tenta ajudar, mas ele apenas sorri de leve e continua o trabalho, mantendo certa distância.

– Dalva penteia os cabelos de Clara, ensina-lhe a rezar antes de dormir, a menina aos poucos sorrindo mais.

– No Rio de Janeiro, um carro estaciona em frente à mansão dos Marins. Estela desce, abatida, carregando Lucas no colo. A imprensa os cerca, flashes e perguntas, mas Pedro os protege e entra rápido com a esposa e o filho.

– Pedro retorna ao escritório, olha projetos e maquetes na Atlântida. Seu olhar é duro e vazio. João Felipe o observa à distância, invejoso, troca olhares com o advogado Silveira.

– Em Arraial do Cabo, Maria Clara mais adaptada, corre pela areia com Dalva e outras crianças. O Sol ilumina seu rosto, revelando a leveza que começa a surgir.

– Ao entardecer, Dalva e Clara sentadas no píer, olhando o horizonte. Dalva segura a mão da menina e sorri, Clara sorri de volta a abraçando. A câmera se afasta lentamente.

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CENA 8. VILA DOS PESCADORES – PRAIA – DIA

Bandeirinhas coloridas entre as casinhas simples do vilarejo, em frente ao mar. Uma mesa enfeitada com flores, um bolo caseiro coberto de coco e uma plaquinha feita à mão: “Parabéns Maria Clara – 6 anos”. Dalva, sorridente, coloca os últimos copinhos sobre a mesa. Zé chega trazendo balões, reclamando.

ZÉ BENTO: Essas bexigas não duram nada nesse sol, mulher. Daqui a pouco tão tudo murcha.

DALVA (rindo): Então gente canta logo os parabéns, antes que elas desmanchem.

Vó Nena e Cema chegando com uma travessa de bolinhos de chuva. As crianças da vila já correm em volta, animadas, enquanto Maria Clara aparece correndo, com um vestidinho azul claro e os cabelos soltos, radiante. Dalva abre os braços.

DALVA: Olha quem chegou! A dona da festa!

MARIA CLARA (rindo): Eu fui buscar o Tiago pra brincar comigo! Ele prometeu que vinha, mamãe.

ZÉ BENTO: Tiago só aparece quando tem bolo, essa é a verdade.

As crianças riem, se divertem. Alguém com violão, cantando os parabéns pra você. Todos cantam, batendo palmas. Maria Clara assopra as velas do bolinho simples, e Dalva a abraça emocionada.

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CENA 9. MANSÃO MARINS – JARDIM – DIA

O Sol atravessando o jardim da mansão. Tudo brilha com o luxo ali colocado: balões metálicos nas cores azul e prata, uma mesa farta de doces e garçons uniformizados servindo taças de bebidas para os adultos. No jardim, um castelo inflável, palhaços e um trenzinho entretendo as crianças. Lucas, de seis anos, veste uma camisa azul marinho e calça branca, segura um carrinho de brinquedo, mas com o olhar distante, pensativo. Perto da mesa principal, Estela observa o filho, visivelmente triste. Bianca ao seu lado.

BIANCA: Está tudo lindo, Estela, um sonho… Mas, me perdoa dizer, parece uma festa tão triste.

ESTELA (suspirando): Porque é, Bianca. (olha em volta) Tudo isso é só uma forma de tentar preencher um vazio que não se preenche nunca. Hoje, Lia faria seis anos também.

BIANCA: Pedro nunca mais foi o mesmo, não é?

ESTELA: Depois do acidente, ele se fechou. Virou um homem de ferro, só fala de números, reuniões, da empresa…

BIANCA: Talvez seja o jeito dele lidar com a dor, Estela.

ESTELA (suspira triste): E o meu jeito é esse… Tentando sorrir para um menino que perdeu a irmã e um pai ao mesmo tempo.

Bianca engole seco, consternada pela amiga.  Ao fundo, Pedro fala ao celular, perto da piscina. Semblante tenso.

PEDRO (celular): Não, eu quero a reunião marcada pra segunda. E quero o relatório pronto até final da tarde. Não importa se é Sábado.

Desliga. Seu rosto não expressa alegria. Lucas se aproxima dele, com cuidado.

LUCAS: Você não vem brincar comigo, pai? É meu aniversário.

Pedro olha para Lucas, tenta sorrir, mas o gesto é duro e ele apenas toca em seu ombro.

PEDRO: Papai tá trabalhando, filho. Vai se divertir com os seus amigos, vai.

Lucas abaixa os olhos, triste. Sai correndo em direção ao castelo inflável. Pedro se afasta, em direção à casa, Estela o olhando, decepcionada. Cecília conversa com algumas amigas, em uma roda.

CECÍLIA: Esse menino tá crescendo cercado de luxo, mas sozinho, coitadinho.

Estela escuta as palavras da sogra, tenta segurar o choro, mas uma fina lágrima escorre pelo rosto. A câmera se afasta do lugar, cheio de gente, mas triste.

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CENA 10. PRAIA – DIA

O Sol começando a se pôr nas águas do mar de Arraial. A pequena Maria Clara, agora completamente adaptada à vida simples da vila, corre descalça pela praia, em volta dela, algumas crianças do lugar, filhos de pescadores, gente simples. Dalva observando a distância.

DALVA (sorrindo emocionada): Que você seja muito feliz, minha filha. Que cresça com saúde, com alegria e cheia de sonhos, e que lá na frente, buscando cada um, que realize tudo o que mais desejar nessa vida.

Maria Clara molha os pés na espuma branca do mar. O som das crianças brincando se mistura ao barulho das ondas. Ela corre em direção ao mar e mergulha nas águas. Os raios de Sol iluminam.

De dentro da água, surge MARIA CLARA, agora adulta, emergindo do mar, em câmera lenta. O cabelo molhado escorrendo pelos ombros, olhar firme e sereno. Caminha até a areia, se abaixa e pega uma pequena concha que a onda deixou em seus pés. Observa e sorri, o mesmo sorriso de criança. Próximo dali, surge TIAGO, rapaz forte e bonito, sorri para ela.

TIAGO (animado, enquanto levanta os braços): Maria Clara!

Ela encara Tiago e sorri.

A imagem congela em MARIA CLARA e as águas do mar cobrem a tela.

(FIM DO CAPÍTULO)

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