MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 02
criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV
Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=tpNHcsx25LGAJt8O
CENA 1. ARRAIAL DO CABO – PÍER – DIA
O dia amanhece cinzento. As ondas batem mansas no píer, após a tempestade da noite anterior. Um barco da polícia marítima encosta, trazendo homens fardados, com expressões cansadas. Pedro e Estela estão ali, abraçados um ao outro e exaustos. Cecília cuidando de Lucas, encolhido nos braços da avó, sem entender direito o que acontece. Um dos oficiais desce do barco e se aproxima.
OFICIAL: Doutor Pedro Marins, dona Estela… Varremos toda a área até a Praia do Forno. Encontramos destroços da lancha, coletes, objetos pessoais, mas nenhum sinal da menina.
ESTELA (voz embargada): Nenhum sinal? Não é possível.
OFICIAL: As buscas continuam, senhora. Vamos ampliar o perímetro ainda hoje. O mar estava violento, é possível que ela tenha sido levada pela correnteza, mas não vamos desistir.
Pedro segurando a esposa, que chora em seu ombro, desesperada.
PEDRO: Continuem procurando. Eu pago o que for preciso, só não parem de procurar, por favor.
O oficial apenas assente e se afasta em silêncio. Estela se vira para o mar, cambaleante, olhos fixos no horizonte.
ESTELA (chorando): Lia, minha filha… Por favor, volta pra mamãe. Volta…
Pedro a abraça forte, tentando contê-la, mas também demonstra estar destruído. Cecília observa, emocionada, acariciando os cabelos do neto. Lucas olha para o mar, confuso, apertando com as mãos, algumas conchinhas que brincava com a irmã.
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CENA 2. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – QUARTO – DIA
Dalva se ajoelha ao lado de sua cama, onde a pequena Lia está deitada, coberta com um lençol gasto. O rosto dela está pálido, o corpo trêmulo de febre. Dalva molha um pano em uma bacia e coloca na testa da menina.
DALVA (aflita): Calma, meu amor. Calma! Vai passar…
LIA (murmurando baixo, delirando): Mamãe… Papai… Não vão embora… Não…
Dalva segura a mão da menina com ternura, olhar marejado. A porta range, entra Vó Nena, que segura um maço de ervas e um pequeno pote com pomada caseira.
VÓ NENA: Trouxe o unguento, ajuda a baixar a febre. Mas a menina tá queimada por dentro, Dalva. Muita água salgada no peito.
DALVA: Eu sei, vó. Mas ela vai viver. Deus não ia me tirar um filho e trazer outro pra morrer de novo nos meus braços.
Vó Nena se aproxima, passa a pomada no peito de Lia e faz o sinal da cruz, murmurando uma oração.
VÓ NENA (rezando baixinho): Anjos de luz, protejam essa inocente. Dêem forças a esse corpo e abrandem o coração dessa mulher…
Vó Nena continua a reza em Lia, Dalva aflita cuidando da menina.
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CENA 3. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – FRENTE – DIA
Uma chuva fraca caindo na praia. Dalva sai de casa e olha para a chuva caindo, olhos fundos. Zé Bento vindo de trás do terreiro, a encara fortemente.
ZÉ BENTO (irritado): Isso não vai dar certo, Dalva. Essa menina é rica, dá pra ver pelo cuidado, pelas roupas. Deve ter gente procurando por ela até no fundo do mar! Se descobrirem que a gente escondeu…
DALVA (firme): Ninguém tá escondendo ninguém, Bento! Tô cuidando de uma criança que Deus jogou no meu caminho.
ZÉ BENTO: E quando vierem atrás? Quando perguntarem o que ela faz aqui? Vai dizer o quê? Que pescou ela do mar?
DALVA (encarando): E foi isso mesmo! Eu pesquei a vida dela de volta, Bento. Não tive chance de segurar o meu filho nos braços, mas essa menina, eu não largo. O mar podia ter levado ela, mas não levou. Foi Deus que me entregou ela!
ZÉ BENTO: O mar traz e leva o que quer, Dalva. Não é a gente que decide.
DALVA (voz embargada): Pois eu decido sim! Perdi a minha menina, e se Deus mandou outra pra essa casa, é porque Ele sabe que meu peito não aguentava esse vazio. (chora) Eu senti quando botei ela nos braços, homem. Senti o coraçãozinho dela batendo fraquinho, mas batia. Foi como se a minha filha também tivesse voltado a respirar.
Dalva chora forte. Zé Bento, tocado, passa a mão no rosto dela.
ZÉ BENTO: Tu tem um coração bom, mulher. Só fico com medo da gente se apegar, e depois o destino tirar de novo.
Dalva segura sua mão, o olhando no fundo dos olhos.
DALVA: O destino não há de me tirar essa menina também. Seja lá quem for ela, agora é nossa filha também.
Zé Bento se dá por vencido e assente. Dalva abraça o marido, colocando a cabeça em seu peito. Os dois abraçados.
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CENA 4. CASA DE PRAIA DOS MARINS – SALA – DIA
Pedro, abatido, passa pela sala e alcança a varanda, olhando o mar batendo nas pedras. Olhar fraco e perdido, com uma foto da família em mãos. Cecília sentada no sofá, observando o filho. João Felipe entra cuidadoso, com uma xícara, vai até o irmão.
JOÃO FELIPE: Trouxe um café, Pedro. Tá forte, do jeito que você gosta e precisa agora.
Pedro não responde, continua mirando o horizonte.
JOÃO FELIPE: Você precisa se manter firme, Pedro. A Estela tá desmoronando, o Lucas precisa de você. Se ele ver o pai assim, vai pensar que tudo acabou.
PEDRO (sem encarar): Acabou, João. Você não entende… A minha filha tá no fundo do mar. Eu não consegui salvá-la.
JOÃO FELIPE (fingindo emoção): Ninguém podia prever o que aconteceu. Foi uma fatalidade… Uma tragédia.
Pedro respira fundo, passa a mão pelo rosto. Cecília observando os dois, se aproxima da varanda.
CECÍLIA: Pedro, meu filho… Você precisa levantar. A empresa está parada, os funcionários sem rumo, a imprensa começou a especular. Talvez fosse o caso de deixar o João assumir por um tempo, só até você conseguir respirar.
PEDRO: Presidente interino? Mãe, eu… Eu não consigo pensar nisso agora. A Atlântida é o que menos me importa, nesse momento.
CECÍLIA: Mas é o que mantém a nossa família de pé. E, no fundo, é o legado que o pai de vocês nos deixou. Não deixe que tudo desmorone também.
JOÃO FELIPE (calmo): Escuta a mamãe, Pedro. Eu não quero tomar o seu lugar, longe disso. Só quero ajudar. Até você se recompor… Até a Lia voltar.
Pedro encara o irmão, olhos marejados.
PEDRO (desacreditado): Ela não vai voltar, João…
JOÃO FELIPE (tocando em seu ombro): Enquanto não houver um corpo, há esperança. Mas enquanto isso, deixa eu cuidar da parte prática. Os negócios, a imprensa, os acionistas, ninguém precisa te ver assim.
Pedro hesita, encara o irmão, há um incômodo que não sabe explicar.
PEDRO (afastando-se): Não agora. Quando eu tiver cabeça, a gente fala disso.
João força um sorriso compreensivo e acena positivamente.
JOÃO FELIPE: Claro, mano. Você sabe que pode contar comigo pra tudo.
Pedro sai dali. João e Cecília se entreolham.
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CENA 5. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – QUARTO – DIA
Dalva observa Lia dormindo, agora mais tranquila e com a pomada aplicada em seu corpo. Respira melhor, vai abrindo os olhinhos aos poucos. Murmura baixinho.
LIA (voz fraca): Mamãe?
DALVA (emocionada): Você acordou… Você acordou, meu amor.
Lia abrindo os olhos com dificuldade, olhando Dalva mais atentamente, ainda enfraquecida. Dalva deixa cair grossas lágrimas pelo rosto, emocionada.
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CENA 6. CASA DE PRAIA DOS MARINS – SALA – NOITE
Estela sentada em uma poltrona, segura um sapatinho de Lia, olhos fundos e vermelhos. A campainha toca, Cecília abre a porta. Entram BIANCA e GUSTAVO, amigos de longa data da família.
BIANCA (abraçando): Cecília, sentimos tanto. Viemos assim que soubemos.
CECÍLIA: Obrigada, Bianca. Eles estão precisando dos amigos agora…
Bianca entra devagar, seguida de Gustavo. Bianca abraça Estela, emocionada.
BIANCA: Estela, meu amor… Eu não tenho nem palavras nesse momento, pra te confortar.
ESTELA (chorando): Eu devia ter protegido a minha filha, Bianca. No fundo, me sinto tão culpada…
BIANCA: Não fala isso, por favor. Não se culpe, Estela!
GUSTAVO: Não conseguiríamos ficar no Rio, sabendo o que aconteceu. Como o Pedro está?
ESTELA: Sem chão, Gustavo. Assim como todos nós. (olhando o vazio) Às vezes, eu fecho os olhos e ainda ouço ela me chamando, sabe? A voz dela vindo do mar. Parece que ela ainda tá lá fora, esperando eu buscar a minha filha.
Bianca, emocionada, segura a mão dela.
BIANCA: Você precisa descansar, minha amiga. Ficar aqui só vai aumentar a dor. Vão pro Rio, fiquem na casa de vocês.
CECÍLIA: É o que eu tenho dito também. Essa casa está cheia de lembranças.
ESTELA: Qualquer lugar que irmos, estará cheio de lembranças, dona Cecília. Aqui ou no Rio…
GUSTAVO: Vocês ainda tem o Lucas. Ele precisa de vocês.
BIANCA: Eu sei que o mar levou muita coisa, Estela. Mas vocês precisam deixar que ele traga o que sobrou.
Estela não responde. As duas se abraçam com carinho.
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CENA 7. ARRAIAL DO CABO – RESTAURANTE – NOITE
Restaurante sofisticado e discreto à beira-mar, com poucas mesas ocupadas. Em uma mesa reservada, João Felipe janta com o advogado SILVEIRA, homem de meia idade, olhar frio, folheia alguns papéis dentro de uma pasta de couro. O garçom serve vinho tinto. João ergue a taça.
JOÃO FELIPE (satisfeito): À família Marins, que sempre acreditou que o mar era generoso.
SILVEIRA (sorri de canto): Generoso pra quem sabe navegar, João.
João sorri e bebe um gole de vinho, se vangloriando.
SILVEIRA: As notícias chegaram rápido no Rio. A polícia encerrou as buscas por hoje, e nenhum corpo foi encontrado.
JOÃO FELIPE: O mar levou o que precisava levar, e deixou o resto pra mim.
SILVEIRA: Pedro está devastado. Se continuar nesse estado, logo vai entregar a presidência da Atlântida de bandeja.
JOÃO FELIPE: É o que eu espero. Ele é fraco, sempre foi. Só tinha força porque Estela e Cecília empurravam ele pra frente. Mas agora, com essa perda da filha, ele é só um homem quebrado.
SILVEIRA: E você o irmão compreensivo, o braço direito pronto para “ajudar”…
JOÃO FELIPE (sorri de canto): Cada tragédia precisa de um herói, não é? Eu só faço o meu papel. (bebendo um gole) Uma pena não ter sido os dois filhos a se perderem no mar, ao invés de uma só.
Silveira o analisando de forma fria. João Felipe cortando um pedaço de carne, como se o que dissesse não tem um peso mórbido.
SILVEIRA: E quanto à lancha? A perícia ainda pode levantar suspeitas para a sabotagem.
JOÃO FELIPE: Já tratei disso. O mecânico que fez a última revisão é um velho amigo, me devia favores. E se alguém resolver abrir a boca… Você sabe o que fazer.
SILVEIRA: Eu sei, mas e você? O que vai fazer agora?
João Felipe olha para o mar, pela janela do local, pensando.
JOÃO FELIPE: Esperar o tempo certo. Pedro vai implorar para que eu assuma a Atlântida, e quando isso acontecer, eu vou transformar aquela empresa na potência que sempre devia ter sido. Sem sentimentalismo barato, sem pequenos herdeiros mimados, sem esposinha se metendo nos negócios.
SILVEIRA: E se a menina aparecer?
João paralisa por um instante. Depois, esboça um sorriso maquiavélico.
JOÃO FELIPE: Ela não vai. O mar não costuma devolver o que toma, mas se isso acontecer… Eu sempre dou o meu jeito. (ergue a taça de vinho) Ao futuro, Silveira. Ao meu futuro!
Eles brindam. João Felipe sorri, bebendo mais um gole.
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A noite vai dando lugar ao dia, e amanhece em Arraial do Cabo. Fachada da casa de praia da família Marins.
CENA 8. CASA DE PRAIA DOS MARINS – ESCRITÓRIO – DIA
O Sol entrando pelas amplas janelas do escritório. João entra no local, onde Pedro está sentado aguardando.
JOÃO FELIPE: Bom dia, meu irmão. Mandou me chamar?
PEDRO: Senta, João. (tempo) Eu pensei muito no que conversamos, sobre a empresa, sobre o que aconteceu com a Lia…
JOÃO FELIPE: Você devia descansar, Pedro. O conselho entende sua dor. Eu posso continuar cuidando das coisas na Atlântida até você…
PEDRO (interrompendo, direto): Não. Eu vou voltar!
João desmanchando o sorriso aos poucos, o encara surpreso.
JOÃO FELIPE: Voltar?
PEDRO: Amanhã mesmo, voltamos para o Rio. Já avisei o conselho. Eu não posso deixar que a Atlântida também afunde, João. Ela não pode ser o reflexo do que estamos passando agora. Já decidi e vou voltar ao comando da empresa.
João contorce os lábios, frustrado, mas Pedro permanece seguro de sua decisão.
A imagem congela em PEDRO e as águas do mar cobrem a tela.
(FIM DO CAPÍTULO)

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