Mar Aberto: a força incontrolável do destino


MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 01

criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV

Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=IYmfa_frahgR0gPa

CENA 1. CASA DE PRAIA DOS MARINS – JARDIM –  DIA

A câmera aérea mostra o mar turquesa de Arraial do Cabo, que reluz com o sol da tarde. Gaivotas voam sobre o jardim da casa de praia dos Marins. Casa de luxo, com coqueiros, mesas coloridas, bexigas e decoração de festa do fundo do mar, um enorme bolo escrito com os nomes de Lucas e Lia. Os gêmeos de quatro anos, correm pelo gramado, de mãos dadas, rindo. PEDRO observa os filhos, sorrindo orgulhoso.

PEDRO (gritando alegre): Cuidado, meus marinheiros! Se correr demais, vão acabar mergulhando no bolo!

LUCAS (rindo): A gente é o mar, papai!

Os convidados riem. Garçom passa servindo espumante e suco. Clima de prosperidade entre os presentes na festa. Debaixo de uma das tendas coloridas, ESTELA e CECÍLIA observam mais afastadas, sorrindo.

ESTELA: Olha lá o Pedro, todo bobo com os filhos.

CECÍLIA: Parece um sonho, Estela. Depois do nascimento dos gêmeos, o Pedro parece outro homem. Mais feliz, completo com a família. Não lembra em nada meu filho irresponsável e namorador da juventude.

ESTELA (ri suspirando): Só eu sei o quanto nossa vida mudou pra melhor depois do nascimento do Lucas e da Lia. Nossos filhos são a nossa vida, minha sogra.


CECÍLIA: Mas o Pedro tem predileção pela Lia, que eu sei. Pode até disfarçar, mas essa menina é o brilho dos olhos do meu filho.

ESTELA (ri): Filha menina sempre tem esse apego com o pai. É impressionante!

As duas riem. Ao fundo, um carro importado se aproxima pela estrada de areia. O ronco do motor atrai a atenção de Pedro, que está com Lia nos ombros.

LIA (apontando): É o tio João, papai!

Pedro sorri animado. O carro estaciona, dele desce JOÃO FELIPE, o irmão mais novo de Pedro, elegante em cores claras, com dois embrulhos de presentes nas mãos. Estela claramente incomodada com a presença de João ali.

ESTELA (tom baixo): Por que ele veio?


CECÍLIA: O João nunca perde uma boa festa, Estela!

Pedro vai até o portão e o abraça com entusiasmo.


PEDRO: Pensei que não vinha mais!

JOÃO FELIPE: Perder o aniversário dos meus sobrinhos? Nunca! São como meus próprios filhos.


Estela se aproxima, forçando um sorriso.


ESTELA (fria): Boa tarde, João.

JOÃO FELIPE (ironia disfarçada): Estela… Cada vez mais linda. O sol de Arraial faz bem à você.

Ela desvia o olhar, desconfortável. Pedro não percebe. João entrega os presentes aos gêmeos e finge ternura.

JOÃO FELIPE: E vocês dois? Já estão grandes o suficiente para assumir a Atlântida?

LUCAS (rindo ingênuo): A gente vai fazer os barcos igual o papai!

PEDRO (rindo): João, você vai gostar da surpresa que eu preparei. Trouxe a nova lancha da Atlântida pra Arraial. Depois da festa vamos todos pro mar batizar o barco!

João Felipe ergue uma taça com bebida, brindando com falsidade.

JOÃO FELIPE: Ao mar, então. Que ele nos leve onde queremos!

Estela encara, desconfiada. Pedro brinda com o irmão, sem desconfiar de suas intenções.

🛥️

CENA 2. ALTO MAR – LANCHA – DIA
A lancha corta as águas, deixando um rastro branco de espuma. Pedro no leme da lancha, dá um beijo em Estela. Saem da cabine de comando. Lia e Lucas brincam com a avó Cecília na proa da embarcação. Pedro se aproxima dos filhos e os abraça, apontando.

PEDRO (entusiasmado): Estão vendo aquela ilha lá longe? É a Ilha dos Porcos! Hoje vai ser o primeiro passeio da nova lancha em mar aberto, meus filhos.

LUCAS (gritando empolgado): A gente vai ver golfinho, pai?

LIA (eufórica): Eu vi um rosto dentro da água, papai. É uma sereia!

Pedro olha Estela e Cecília.

CECÍLIA: Essas crianças tem uma imaginação!

ESTELA (passando a mão pelos braços): Pedro, vou pegar uma toalha para as crianças. Tá ventando demais!

PEDRO (sorri): Tá dentro da cabine, amor. Embaixo do banco.

Estela concorda e sai em direção à parte interna da lancha.
🛥️

CENA 3. LANCHA – DIA
Enquanto todos estão distraídos, João tira um celular pequeno e prateado do bolso, tecnologia de ponta para a época.

JOÃO FELIPE (baixo): Tô na lancha. Já estamos em mar aberto. (Silêncio) Faz como eu mandei, deixa o resto comigo. (Silêncio) Não. Ninguém desconfia. Depois que tudo acontecer, você sabe o que fazer.

Ele olha pela janela, observa as crianças brincando no convés. Estela desce as escadas, e João assustado encerra a ligação, forçando um sorriso.

ESTELA (desconfiada): Falando com quem?

JOÃO FELIPE (rapidamente): Com o escritório. O pessoal do Rio não entende o conceito de “fim de semana”.

ESTELA (seca): Estranho, pensei que você tivesse vindo pra esquecer os negócios, nem trouxe pasta.

JOÃO FELIPE (sorri irônico): Mulheres reparam em tudo, não é? Relaxa, cunhadinha. (se aproxima dela) O mar é grande demais para misturar trabalho com prazer.

Ela encara firme, pega as toalhas e sobe. João se vira e olha novamente o irmão e os sobrinhos brincando, seu rosto se fecha completamente.

🛥️

CENA 4. ARRAIAL DO CABO – VILA DOS PESCADORES – DIA

Vilarejo simples, cercado de dunas e pelo mar azul cristalino. Casas pequenas de cal e madeira, varais cheios de roupas coloridas, balançando ao vento. Um rádio de pilha tocando uma música qualquer no fundo, enquanto DALVA estende roupas no quintal. O barrigão de grávida se destaca, ela cantarola junto do rádio. Para cansada, passa a mão pela barriga.


DALVA: Mais um dia de espera… Logo você chega, meu anjinho.

Acaricia a barriga. De repente, uma pontada forte, e Dalva se curva ofegante, segurando no varal. Uma peça cai no chão molhado.

DALVA (ofegante): Ai meu Deus, agora não.

Tenta se manter de pé, mas uma nova contração a faz gritar de dor. Uma vizinha, CEMA, corre do outro lado da cerca.

CEMA (assustada): Dalva! O que foi, minha filha?

DALVA (gemendo): Chegou a hora, Cema! (Encarando) O bebê vai nascer. Chama a vó Nena… E o Zé Bento, pelo amor de Deus! Eu quero meu marido aqui! Ele tá no mar! Manda chamar!

Cema grita um garoto na rua.

CEMA: Corre, menino! Vai buscar a vó Nena, diz que a Dalva vai parir a criança! E manda os homens chamarem o Zé Bento no mar! Agora!

O menino sai correndo pelo caminho de areia. Dalva respirando com dificuldade, enquanto a água de parto escorre pelo chão de terra batida.
🛥️

CENA 5. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – QUARTO – DIA
O vento entrando pelas janelas abertas do quarto. VÓ NENA, uma mulher idosa, chega apressada com uma sacola de pano. Tira o lenço da cabeça e se aproxima de Dalva, que está deitada sobre a cama, urrando de dor, transpirando muito.

VÓ NENA: Força, minha filha. Tua menina tá chegando. (agacha entre as pernas) Agora deixa o corpo fazer o trabalho dele.

DALVA (gemendo e chorando): Dói tanto, vó… Zé Bento devia tá aqui!

VÓ NENA: Homem que se cria com o mar nunca tá onde devia, Dalva. Agora respira e empurra essa menina pro mundo.

Dalva grita. A câmera alterna entre o suor no rosto dela, o pano ensanguentado nas mãos de Vó Nena, e o vento batendo nas janelas.


Do lado de fora, Zé Bento se aproxima de casa, vindo do mar, correndo apressado. Passa por um grupo de mulheres da vila no terreiro, todas aflitas. Ele segue para o interior da casa.
🛥️

CENA 6. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – SALA – DIA
Zé Bento entra em casa e já depara com Vó Nena segurando o bebê nos braços, envolvido em um pano branco. Dalva no sofá de casa, olhos inchados e expressão devastada.

ZÉ BENTO (voz embargada): É minha filha? Ela tá bem, vó Nena? (sorri emocionado) Deixa eu ouvir o chorinho dela, vó.

Vó Nena hesita. Seus olhos marejam, mas ela se mantém firme.

VÓ NENA: O anjinho já nasceu pronto pro céu, meu filho.



Zé Bento desfaz o sorriso aos poucos, impactado, tentando raciocinar. Dalva chora baixinho.

DALVA (chorando): A culpa é minha, Zé. Eu não tava sentindo ela, achei que era normal. Que tava tudo bem.

ZÉ BENTO (grita): Não! Deus não pode ter levado minha filha!

Ele abraça o pequeno corpo, procurando algum sinal de vida. Não encontra nada e chora. Dalva chorando ao ver aquela cena. Vó Nena segura o corpo do bebê. Zé anda de um lado para o outro, com as mãos na cabeça, desesperado.

ZÉ BENTO (explode): Culpa tua! (agressivo com Dalva) Culpa tua que não segurou a barriga! Culpa de Deus que levou minha filha! Eu nunca vou te perdoar, Dalva! Nunca!

Zé Bento corre até o quarto, vai pegando uma sacola, juntando algumas roupas. Dalva tenta se erguer, cambaleando, fraca.

VÓ NENA: Não, minha filha! Você acabou de parir! Não faz esforço!

DALVA (chora desesperada): Ele vai me deixar, vó Nena! Eu não posso deixar ele ir embora! Não!

Zé Bento passa pela sala, corre em direção à rua. Dalva, muito fraca, indo atrás.

🛥️



CENA 7. CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – FRENTE – DIA
Zé sai nervoso de casa. Dalva escorando nas paredes, implorando.

DALVA: Não me deixa, Bento… Por favor, não agora! Eu preciso de você!

Zé Bento para no terreiro, sem encará-la.

ZÉ BENTO (olhos marejados): Eu também precisava de você, Dalva! Mas você… Você matou a minha filha! (se vira encarando, grita) Matou a minha filha!

Dalva chora desesperada. Bento corre para fora do terreiro. Cambaleante, Dalva não se contém e vai atrás dele, apesar dos apelos das mulheres ao lado de fora da casa tentarem impedir.

🛥️



CENA 8. LANCHA/ ALTO MAR – DIA
Pedro entra na cabine, nervoso. Mexe no painel, mas o motor da lancha está engasgado. Tenta corrigir os comandos.

PEDRO (nervoso): Isso é estranho. Não era pra estar acontecendo!

O som do motor falha de vez. A lancha desacelera e começa a balançar violentamente. Na cabine, Estela está abraçada aos filhos, assustados. Cecília igualmente nervosa, enquanto João Felipe forja um nervosismo aparente.

LUCAS: Mamãe, tô com medo.

LIA (chorando): Eu também.

Pedro entra nervoso na cabine. Estela o encarando.

ESTELA (assustada): Pedro, o que tá acontecendo?

PEDRO: Deve ter entrado água na admissão. Calma, vou resolver isso!

Os relâmpagos riscam o céu. Pedro e Estela se olham assustados. As crianças gritam pelo pai. É tudo muito rápido, uma explosão abala a lancha. Um clarão vindo do exterior do local, seguido de um estrondo ensurdecedor. Fumaças e labaredas se erguem. A lancha inclina e o convés se parte, engolindo tudo pela frente. Estela grita pelos filhos, em desespero. Lucas e Lia se debatem na água, tentando chegar até os pais. Cortes de cena. Estela tenta se agarrar à alguma parte da lancha em destroços. Gritos e trovões, misturados ao som das ondas. Pedro emerge, ferido, e nada em desespero.

PEDRO (berrando): Estela! As crianças! LUCAS! LIAAAA!

Ele mergulha e reaparece repetidas vezes, ofegante. Estela chora desesperada, tentando se manter à tona. Do outro lado, João Felipe que já puxou um bote preso à lancha, puxa a mãe Cecília para dentro dele, fingindo desespero.

JOÃO FELIPE (gritando): Pedro! Segura na corda! Aqui!

O bote se afastando da lancha lentamente, que afunda em chamas.

PEDRO (gritando): Eu não saio daqui sem os meus filhos!

Estela é resgatada por João e colocada no bote, mas está na beirada dele, ainda gritando por Lucas e Lia, sem sucesso. Pedro mergulha repetidas vezes, buscando pelos filhos, em meio ao mar revolto.

🛥️


CENA 9. BARCO PESQUEIRO DE ZÉ BENTO – DIA
O mar revolto e a tempestade também atingem o barco pesqueiro de madeira de Zé Bento. O pescador e Dalva discutindo no convés da embarcação, cheia de redes de pesca e outras traquitanas.

DALVA (gritando): Eu preciso de você, Zé! Não me deixa, por tudo que há de mais sagrado! Já basta Deus ter levado nossa menina! Volta pra nossa casa!

ZÉ BENTO (chorando desolado): Aquilo não é mais casa, Dalva! É o túmulo da nossa filha e a culpada é tu! Esse mar agora é minha casa, ou a minha morte!

Dalva corre até ele, e o segura pelos braços. O vento e a chuva da tempestade os atingindo em cheio.

DALVA: E eu fico com o coração gritando sozinha? Você foge, Bento! Foge de mim, foge da dor, foge de Deus! Tu quer morrer, homem?

Trovões ressoam no céu. A lona do barco levantando. Os dois quase caindo da embarcação.

ZÉ BENTO (chorando): Eu já morri, Dalva. Eu já morri!

Dalva o abraça forte, em meio à tempestade. Ele se entrega à dor do momento.
🛥️


CENA 10. ALTO MAR – NOITE
Céu escuro cobrindo todo o cenário de destruição em alto mar. Trovões e relâmpagos iluminam o caos. No bote salva-vidas, Cecília chora enquanto reza pelos netos. João Felipe fingindo acolher a família nesse momento. Pedro rema com força, olhos marejados de desespero, Estela ao lado, gritando entre soluços.


ESTELA (gritando): LUCAS! Meu Deus, devolve os meus filhos! LIA!

De repente, um vulto surge entre as ondas, o corpo de Lucas boiando inerte sobre um pedaço da lancha. Pedro se lança na água sem hesitar. Luta contra as correntezas em direção ao filho. Quando volta à tona, traz o menino nos braços, pálido e desacordado.

ESTELA: Lucas! Meu filho! (tenta reanimá-lo, chorando) Respira, meu amor…

Pedro o acomoda no bote, sufocado de emoção. O menino tosse, expelindo água do mar, e Estela o abraça com força, tomada pelo alívio.

PEDRO: Ele vai ficar bem, Estela!

ESTELA (olhando em volta, apavorada): E a Lia, Pedro? Cadê a Lia?!

Os dois se olham desesperados. Pedro grita o nome da filha para o vazio, não há mais esperanças.
🛥️



CENA 11. BARCO PESQUEIRO DE ZÉ BENTO – NOITE
O barco de Zé Bento balança violentamente na tempestade. Zé e Dalva encharcados, em meio à ventania.

DALVA: Tenta voltar, Zé! Esse barco vai virar!

ZÉ BENTO: Tô tentando, Dalva! Reza pra Nossa Senhora! Pede pra ela!

Aflita, Dalva fecha os olhos em oração. Trovões ecoam no céu. Um raio corta no horizonte, e quando Dalva abre os olhos, seu olhar fixa em algo à deriva.

DALVA: Minha Nossa Senhora! Olha aquilo, Bento!

Ela aproxima da borda. Entre as ondas, um pedaço destroçado de lancha flutua, e sobre ele, o corpo de uma menina. Lia, desacordada, com o cabelo grudado ao rosto.

DALVA (gritando): É uma criança, Zé! Uma menina!

ZÉ BENTO: Segura firme, mulher!

Com esforço, ele maneja o barco até se aproximar. Dalva se estica para conseguir agarrar a menina pelos braços, e Zé Bento a ajuda a puxar o corpo para dentro do barco. Dalva segura Lia contra o peito, desesperada, lágrimas se misturam à chuva.

DALVA: Respira, meu anjo. Respira!

Lia tosse, expelindo água. Dalva sorri, chorando.

DALVA (emocionada): Ela tá viva, Zé! Graças a Deus! Tá viva…

Dalva sorri, acarinhando o rosto de Lia, muito fraca, voltando à si.

A imagem congela em LIA e as águas do mar cobrem a tela.



(FIM DO CAPÍTULO)

Avaliação: 1 de 5.

Deixe um comentário